terça-feira, 14 de junho de 2011

Borboleta


Borboleta, onde vais tu?

Abanas tuas asas desenhando um cordel ondulatório com as cores que deixas para trás.

Qual o objectivo de tanto esforço, se voas sempre nos mesmos círculos inconstantes?

“É precisamente por serem inconstantes que esses círculos me fascinam”.

Vives metade da tua vida fechada num casulo e a outra metade a esvoaçar as mesmas flores.

“Pouco me interessa pouco conhecer o muito, interessa-me, sim, conhecer muito o pouco”.

Porque deixas tu que criaturas tão grandes e assustadoras em relação a ti, como aquele rapaz, te peguem?

“Eu deixo-me estar inerte de medo, não de prazer”.

Não achas que paralisares de medo pode ser pior do que fugir, de tão delicada que és?

“Independentemente do meu medo, sei que não me fazem mal. Mantenho-me porque é com o medo que se vence o medo”.

Que queres tu dizer com isso?

“Quero com isto dizer que o medo só me faz mais pequena que o mundo. Se eu fugir dele, continuarei com ele para a vida. Se o enfrentar, passando por ele, então esse medo desaparecerá. Daí eu dizer que o medo com o medo se cura”.

Como vives tu a tua vida, sabendo que tens apenas um dia de vida?

“Não sei quanto tempo tenho. Apenas vivo”.

Vives feliz?

“A inocência e a pura ignorância fazem de mim uma borboleta feliz”.

Mas não gostas de saber mais e mais?

“Gosto de saber que nada sei. Gosto de descobrir o que nunca será possível descobrir. Mas não gosto de viver nessa obsessão. Nunca sabemos nada do trilião que o mundo é. Vivo apenas com a sabedoria do maior sábio, que é saber que nada se sabe”.

Não ficas frustrada por não saber nada?

“É tal facto que me dá tanto prazer na vida. Se tudo soubesse, tudo perderia o interesse”.

Já te compreendo, borboleta. Vai. Vai no teu caminho e não te desvies para fugir de medos ou da ignorância. Vive a vida. Eu vivo um século, tu vives um dia. Mas o teu dia é tão pouco em relação ao meu século, quanto o meu século é tão pouco em relação à idade do mundo. Vivemos tão pouco e sabemos tão nada, que tal vida nos dá tanto prazer. Aí está o segredo da Natureza e o seu fascínio também. Tudo é relativo, mas tudo é tão nada, e tão tudo…

Miguel Cruz

14 de Junho de 2011

sábado, 9 de abril de 2011

Antíteses da Vida

Sou um rio seco, com nascente, mas sem foz. Gosto de antíteses, contrários e antónimos. Mas utilizo os sinónimos para os poder realçar. Ultimamente são lábios secos que molham os meus. Não têm nada em si, mas tudo o que têm dão a quem amam. Sou um poço seco de lágrimas. Todas as que se formam choram para dentro e trancam a porta de saída atrás de si. Todas as portas do meu corpo estão trancadas e nada deixam sair. Apenas os suspiros conseguem voar, mas nada levam consigo. São suspiros secos que só servem para esvaziar um pouco mais o peito e melhor sentir o deserto que existe dentro de mim. Todos os meus movimentos são movimentos sem objectivo. Movo a cabeça em busca de algo que não existe. Em busca de algo que nem eu sei o que é… Porque não existe. Todas as minhas frases se perdem pela ilógica. A última frase que escrevi foi uma frase em inglês e que era feita de “I never realised”. Mas o que é que eu nunca percebi? Não sei… Talvez muita coisa… Talvez nada… Mas acredito mais no nada, porque é o nada que me governa. É o nada que comanda o meu corpo. Mas comanda-o sem rumo. E como alguém de sabedoria me disse “Sem rumo, não existe vento a favor”. Deixo-me navegar no meio do oceano de lágrimas dos outros. Deixo-me levar. Já não faço as coisas com os objectivos devidos. A última vez que peguei na guitarra foi para desafinar as cordas. A última vez que olhei para a Lua foi para a ver. A última vez que vi a Lua, foi para dizer que o fiz. Antes, olhava para a Lua e via-a. Via a Lua e inspirava-me para algo. Mas agora posso estar o mais inspirado possível, mas não encontro nada para utilizar essa inspiração. Sinto um aperto constante no peito. Acredito que seja o esvaziamento através de suspiros. Suspiros estes que já não me libertam dos males, mas me prendem neles. Houve alguém de sabedoria que me contou uma história um dia. Uma história que se resumia na questão “quem está pior? O tetraplégico ou o paraplégico?” e que se concluía na simples frase “o humano é um Ser insatisfeito”. Se tem pão, é porque não tem manteiga. Se tem manteiga é porque não tem queijo. Se tem queijo é porque não tem fiambre. Mas fico na dúvida se me deva mesmo queixar ou não. Se me queixo, sinto-me mal porque há gente pior. E aqui entramos na discussão do nu e do mal vestido, do sozinho e do mal acompanhado. Se não me queixo, sinto-me mal porque todos se queixam, menos eu, que a meu ver tenho os problemas mais graves. Mas isso é algo inquestionável. Os meus são mais graves, porque os dos outros não me doem. É engraçado. Ultimamente tenho andado com necessidade de me libertar de forma violenta. Apetece-me rasgar os livros por onde estudo para um futuro incerto. Apetece-me partir o computador que me dá a conhecer todo o mundo, mas me retira do meu próprio mundo. Apetece-me partir a guitarra que me faz feliz por me dar música, mas que me deixa frustrado por não a conseguir fazer. Apetece-me bater nas pessoas que me magoam, mas são essas pessoas que me importam. Porque me haveriam de magoar se não fizessem parte da minha vida de modo tão intenso? É como estar dum lado do muro e tentar limpar o graffiti desenhado do outro lado. Sou um rio com nascente, mas sem foz. Existe onde eu posso chegar, mas não a encontro. Estou do lado de fora de mim a tentar encontrar algo que está dentro de mim. Preciso de encontrar a chuva que me poderá encher e encaminhar-me até ao meu destino, que se encontra na foz que se liga ao Mar, à minha vida.

“I never realised why I didn’t think about this before”.

Miguel Cruz

9 de Abril de 2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Diálogo a Três

“Pétala, para onde vais tu?”

“Irei para onde tu me levares, meu vento!”

“Estará ao meu critério?”

“Perdi os meus sentidos por ti, agora sou tua!”

“Então serás minha até conheceres a flor que largaste quando eras verdinha!”

“Reconhecer-me-á ela?”

“És pedaço dela.”

“Serei?”

“Descobre por ti!”

“Minha mãe?”

“Estás tão linda, minha filha!”

“Desculpa-me ter-te largado pela minha teimosia.”

“A púrpura tomou conta da tua teimosia.”

“Não vás, minha mãe.”

“Irei, mas deixarei um belo pedaço meu cá.”

“Serás feliz?”

“Serei paciente até encheres uma vida.”

“Como o faço?”

“Tu própria o descobrirás, doce filha.”

“Minha mãe?”

“Partiu, minha pétala!”

“Doeu?”

“Irá doer, mas de saudade!”

“Conseguirei encher uma vida?”

“Apenas sê tu!”

“E ela?”

“Ela encheu uma vida e deu-a a ti para a continuares.”

“Leva-me!”

“Minha serás!”

“Para sempre!”

Miguel Cruz

17 de Fevereiro de 2011

domingo, 16 de janeiro de 2011

Medo

O mundo está a cair e as pessoas seguem o instinto do medo...

"O tímido tem medo antes do perigo; o covarde, durante; o corajoso, depois."

(Johann Paul Richter)

"Onde o medo está presente, a sabedoria não consegue estar."

(Lucius C. Lactantius)

"Só erra quem produz. Mas, só produz quem não tem medo de errar."

(Autor desconhecido)

"As massas humanas mais perigosas são aquelas em cujas veias foi injectado o veneno do medo. Do medo da mudança."

(Octavio Paz)

"Tenho mais medo da mediocridade que da morte."

(Bob Fosse)

"O medo é a maior das doenças, porque paralisa o corpo e a mente."

(Autor desconhecido)

"Evitar a felicidade com medo que ela acabe é o melhor meio de ser infeliz."
(Autor desconhecido)






Algo tem de ser feito...

Temos de começar por nós próprios!

Um por um... Vamos lá!



"Não tenho medo das tempestades porque sei como guiar o meu navio."

(Luisa May Alcott)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010



Ora bem, como podem ver, na foto estão presentes duas guitarras e um monte de papéis no meio delas. Essas guitarras são duas das minhas três. A de cima eu dei o nome de Ben|ny|, a de baixo dei o nome de Hippie Hendrix e a outra guitarra que não está presente, que é a mais recente, também bastante importante, dei o nome de David|mar|. Ora vejamos porque raio dei estes nomes esquisitos a elas... A Ben|ny| recebi-a por volta do meu quarto ou quinto ano, portanto, há cerca de dez anos. Foi comprada na Feira de Artesanato do Estoril e tem um valor enorme para mim por várias razões. Foi a minha primeira guitarra, só minha mesmo (porque tinha a Hippie Hendrix, mas essa era do meu pai). Foi feita à minha frente na barraca onde a comprei, o que lhe dá um valor extraordinário. É uma guitarra bastante elogiada por vários fabricantes de guitarras e até já se ofereceram para a comprar várias vezes, se eu não a quisesse. No entanto, na altura em que os meus pais ma compraram, eu ainda tinha as mãos muito pequeninas para ela. Mais tarde, então, os meus pais ofereceram-me uma guitarra minúscula para eu poder tocar. Mas nunca lhe liguei nenhuma! A Ben|ny| esteve durante muito tempo encostada a um canto e só o meu pai tocava nela e a guitarra pequenina, acho que nunca lhe dei grande uso e acabei mesmo por dá-la a uns primos. Cheguei, então ao meu décimo ano, em que mudei de escola e me senti com mais tempo. Perto do Natal desse ano de 2007, eu estava muito bem no meu cantinho a jogar computador e o meu pai chega-se ao pé de mim e começa a tocar na Ben|ny| e fiquei interessado a ouvir. "Afinal, esta guitarra tem um belo som", pensei eu. Nessa tarde, o meu pai ensinou-me três acordes. A partir daí comecei a tocar todos os dias, sempre esses três acordes, variando os ritmos e a ordem com que os tocava. Nesse Natal, recebi um livro com 1000 músicas para aprender na guitarra. Foi aí que descobri mais acordes também fáceis, como o Sol, o Dó e o Ré, que mais tarde se tornou o meu acorde preferido. Por essa altura comecei a dar-me imensamente bem com a Margarida Quaresma, que tinha conhecido em 2006 numa viagem a Inglaterra. Já nessas duas semanas fantásticas nos tínhamos dado muito bem e, finalmente em 2008 nos reencontrámos na escola e, com isso, formámos uma banda: Tears Of Shadow At Sunrise. Eu, ela e a Joana Neves, que toca piano e era a melhor amiga da Margarida (mais tarde, se tornou a minha melhor amiga também). Comecei a compor desde aí e a criar músicas a partir das letras que elas escreviam. Ainda tenho muitas gravações antigas, algumas com músicas que ainda tenho de explorar melhor, pois têm algum potencial. Mas aconteceu uma desgraça com a minha guitarra... Um dia, quando cheguei da casa de um amigo meu com a guitarra, abri a bolsa onde ela vinha e a guitarra estava completamente partida, com um corte gigante desde uma extremidade da curva até à outra. Fiquei destroçado e durante muito tempo não toquei como deve ser. No entanto, mais tarde peguei nela de novo e tocava e gravava com ela na mesma. Mas já começava a ter as cordas desafinadas e a abrir cada vez mais o buraco. Chegou então a David|mar| no meu aniversário e aí formou-se uma revolução nas minhas gravações. Mas nunca larguei a Ben|ny|, e um dia fui mandá-la arranjar. Quando voltou, parece que voltou nova! Mais uma vez, voltei a tocar nela e hoje é a minha guitarra de eleição de novo, visto que a David|mar| tem o braço torto, o que também me deixa triste. Mas vocês devem estar a perguntar-se "mas porquê Ben|ny|"? Ora vejamos, este nome foi dado no décimo ano, quando eu ouvia imenso a música do Ben Harper com a Vanessa da Mata - Good Luck/Boa Sorte. Sempre me marcou muito essa música, desde o início. Comecei a pesquisar sobre o Ben Harper, apesar de já o conhecer antes dessa música e fiquei fã mesmo. O Ben Harper é uma das razões da minha escolha para o nome. O Ben Moody também foi uma grande influência para o nome que escolhi. Quando fui a Londres em 2006, fiquei maravilhado com o Big Ben e essa também foi outra razão da minha escolha. A minha professora no curso de Inglês que tirei nessa viagem chamava-se Benny e eu gostei bastante dela. Um colega da minha turma desde o décimo ao décimo primeiro ano, chamava-se Bernardo, mas todos chamavam-no Benny e foi uma grande influência para mim no que diz respeito a pesquisar sobre música. Muitas bandas conheci por causa dele. Muitas bandas estudei para conhecer mais e mais e ele foi uma grande ajuda para mim. Foi estas razões que dei o nome de Benny à minha guitarra com o "ny" entre | | para separar os Ben dos Bennys.
Quanto à Hippie Hendrix, tem já cerca de 26 anos e foi do meu pai (e ainda é, mas também é minha). Essa guitarra já foi com o meu pai para grandes viagens e já caiu das escadas abaixo, mas nunca se partiu! Ainda está inteira, apesar do braço já estar um pouco empenado. Chamei-lhe de Hippie Hendrix porque era da altura do Jimi Hendrix e dos Hippies o que lhe dá um valor incondicional!
As guitarras podem contar muitas histórias da nossa vida, daí termos de cuidar muito bem delas. Nunca largarei a Ben|ny|, por mais guitarras que tenha, porque será sempre uma guitarra muito especial!
Esse molho de papéis é o conjunto de todas as letras que criei, que criaram para mim e de músicas de outros artistas acumuladas desde o meu décimo ano. Pode-se dizer que já me perco no meio de tão grande imensidão de letras!
Espero não ter sido aborrecido a contar estas histórias, mas são algo de muito importante para mim e achei que deveria partilhar com vocês! Muito obrigado pela atenção!

domingo, 21 de novembro de 2010

Vida Urbana, ou Vida?


Um quarto vazio, apenas com cortinados leves esvoaçando com o vento que entra pela janela entreaberta. Um ruído resultante das vidas misturadas que passeiam lá em baixo entranha-se pelo silêncio do quarto, dando-lhe um clima urbano calmo. A porta do quarto está encostada, mas não fechada. A corrente de ar causa um batuque irregular da tranca da porta a bater na ombreira. O quarto apenas está mobilado com uma mesinha de madeira e um jarro de cristal com uma tulipa a baloiçar na água já suja. Vem uma rajada mais forte que as outras e leva uma pétala da flor que segue pela janela fora.
Lá vai a pétala a baloiçar, procurando o equilíbrio no muro de vento líquido ou gasoso até descer ao nível dos vultos que passeiam na rua. Atravessa os sorrisos da gente nova, atravessa os olhares tristes da gente velha. Atravessa a cabeças incansáveis dos gatos a explorarem tudo em seu redor e os focinhos dos cães que farejam em busca do dono. Atravessa os senhores que andaram na guerra e pedem esmola pela perna que perderam. Atravessa os homens que com a sua guitarra fazem o pé-de-meia para sobreviver à custa do divertimento dos outros. Atravessa as senhoras que gritam na rua a qualidade dos seus peixes. Atravessa o medo do homem que roubou a carteira anteriormente fechada numa mala. Atravessa o desespero do homem que a perdeu. Atravessa as lojas de sucesso e as lojas invejosas desse sucesso. E por fim, arrasta-se pelo chão, quando o vento não consegue mais. No chão fica, abandonada, a murchar cada vez mais, perdendo a cor que uma vida dá, apenas vivendo sem viver e esperando um acaso da vida ou o destino.
Surge o primeiro. Um menino pega na pétala e começa a correr, tropeçando-se devido ao seu pouco tempo de vida. Grita à mãe no meio de risos de felicidade pela sua descoberta. Levanta a mãozinha na direcção do olhar da mãe procurando uma resposta. A mãe pega na pétala e sopra na direcção do vento para que voe essa pétala murcha e sem cor. Diz que já não tem interesse e muitas mais há, mais bonitas até. O menino olha a pétala triste da sua perda. Mas não por muito tempo. Segundos depois já pulava e saltava de alegria pela folha seca que descobrira. E a nossa pétala voa para onde o vento a manda, perdendo-se no infinito do mundo.
As nuvens não aguentam mais o seu peso suspenso, começando a cair vertiginosamente. Forma-se a chuva. Os pingos molham a gente nova que começa a correr em busca de abrigo nos cafés. Molham a gente velha que abre o chapéu-de-chuva protestando contra o clima do país. Molham os gatos que se abrigam debaixo dos caixotes do lixo comendo os restos do peixe deixado pela gente. Molham os cães que correm em busca de poças para brincar, sacudindo as orelhas molhadas. Molham os senhores sem uma perna que ficam sentados por baixo da varanda maldizendo a chuva por impedir a angariação dos seus fundos de sobrevivência. Molham os homens que tocavam e agora arrumam a guitarra e os trocos ganhos para os ir gastar no chocolate quente do café mais próximo. Molham as senhoras que desfazem as tendas do seu peixe, enviando pragas à chuva por estragar o negócio. Molham o homem que ia para casa com a carteira roubada, mas abrigou-se da chuva num café. Molham o homem que a perdeu e encontrou o assaltante em pleno café, recuperando a carteira. Molham os vidros das lojas cheias de gente, dando graças à chuva. Molham o menino com cara molhada de lágrimas e da chuva. Molham a nossa pétala que recupera a cor e a vida e dá graças à chuva, não pelo dinheiro que vai conseguir, que de nada lhe serve… mas sim pela vida que esta lhe devolveu!

Miguel Cruz
21 de Novembro de 2010

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Impurezas

Aqueles que foram,
Aqueles que são.
Aqueles que eram
E que já não são.
Sinto uma brisa fresca acariciar-me as feições. Respiro-a.
Sinto as ervas por cortar dançarem com as minhas pernas.
Verde, verde, verde... Olho para cima. Azul... Luz... Primavera...
Mas uma nuvem negra tapa o olhar do Sol. Olho para baixo e a uns metros de mim encontra-se uma grade que desenha um enorme quadrado. Aproximo-me.
Castanho... Sujo... Escuro... Por cima da grade, arame farpado.
Apuro o ouvido e ouço berros de desespero, berros de fúria, berros de morte. O cheiro a carne esturricada invade-me. Viro a cara bruscamente.
Verde, verde, verde... Alívio. Respiro fundo. Começo a andar para a direita, devagar, ao longo da grade. No chão, do lado de dentro, uma frase...
Aqueles que foram,
Aqueles que são.
Aqueles que eram
E que já não são.
... escrita na areia, possivelmente com a ponta dum dedo ensanguentado.
Na grade, uma placa...
PERIGO! Raça impura!
... pendurada, possivelmente limpa... Mas só por fora.
Continuei a andar...
Aqueles que foram...
Olhei à volta. Cadáveres espalhados pelo chão...
Aqueles que são...
Parei. Uma voz rouca lamentava-se do lado de dentro. Olhei. Uma criança de oito anos, suja, caída no chão. Fiquei a olhá-la atentamente. Senti uma gota a cair-me dos olhos sem ter dado por isso. De repente, ouvi um estalo. Olhei para cima. Um guarda, bem vestido, limpo, com um chicote na mão. A criança desatou a correr, com a mão poisada na nuca.
Aqueles que eram...
Um homem acolheu a criança nos braços. Tinha ar de médico. Tentou começar o curativo na nuca do menino. Um estrondo. Uma bala trespassou o homem que caiu com a criança nos braços, a protegê-la.
E que já não são...
O guarda levantou a arma, apontando para a cabeça da criança.
PERIGOSO! Raça impura!
Peguei numa pedra e atirei. O guarda caiu. A criança correu na minha direcção, atirou-se para a grade para a subir. Um berro de desespero disparou-a para trás. Ainda se ouvia a electricidade das grades. À minha frente, três corpos, sem vida.
Um corpo, debruçado, protegento algo que já lá não estava. Fora médico, agora tratado como um animal caçado.
Um corpo, pequeno, inocente, frágil, sujo. Caído no chão, electrificado. Sujo por fora, puro por dentro.
PERIGOSO! Raça impura!
Um corpo, grande, forte, limpo. Limpo por fora, sujo por dentro.
Virei-me, novamente bruscamente.
Verde, verde, verde...
Aqueles que foram,
Aqueles que são.
Aqueles que eram
E que já não são.
Não há raças, há ideais.
Sinto uma brisa acariciar-me as feições.
Respiro-a...

Miguel Cruz
18.01.2010